Convenhamos, ninguém mais tem tempo ou saco de sentar-se para ler um livro hoje em dia. Quer dizer, fora do banheiro, e talvez na sala de espera do dentista se a coleção de revistas dele for muito velha.
Eu não vou aporrinhar vocês com o velho clichê de que “neste país”, “nos dias de hoje” nesse “império das imagens” com sua “velocidade de video clipe” as pessoas “desaprenderem a ler” ou que “a culpa é da televisão” ou “da internet”. Por mais que isso tenha uma parcela de verdade, acho que esse fator é muito superestimado e serve de bode expiatório para o real problema. Na verdade eu acho que as pessoas lêem poucos livros porque escrevem muita coisa ruim por aí. Mas ruim de doer.
Não me entenda mal, eu adoro comprar livros de autores novos e fuçar blogs de escritores por aí. Poxa, eu sou o cara que COMPRA o livrinho que o poeta chato distribui nos barzinhos da Avenida Paulista ou Vila Madalena nas sextas feiras e me dou ao trabalho de ler depois (não estou falando de você, Mine, mas de outro poeta chato). E salvo um ou outro achado de pessoas com um talento que beira o assustador (pois elas existem), sinto dizer que pouquíssimas vezes fui recompensado. Quando tentam fazer algo diferente e erram a mão feio eu até respeito, mas a grande maioria das vezes você encontra gente que escreve num tom pretensioso e acaba fazendo uma fotocópia barata de Machados e Clarisses. Raios, se for pra ler isso eu leio o original!
Não gosto pessoalmente desses autores, mas quem critíca os Paulos Coelhos, J. K. Rowlings e Dan Browns da vida, apenas por seu sucesso, devia tentar perceber que milhões de pessoas lêem os livros dessa gente pelo simples fato de que elas gostam. A pedante crítica sobre a qualidade dos livros desses autores muitas vezes esconde uma pontinha de inveja do seu sucesso, quando a meu ver eu acho muito saudável que pessoas que não liam nada além de CARAS ou PLACAR encontrem algo que as divirta em um livro. Ainda mais depois do ensino primário e médio “deste país”, que ao entuchar goela abaixo da garotada os grandes baluartes literários de séculos passados conseguem com grande eficiência assustá-los para sempre para bem longe da literatura. Eu sei que eu passei a gostar de ler apesar do meu colégio, e não por causa dele.
Salvo um ou outro caso excepcional, literatura é coisa de velho. Eu não tenho nenhum plano diretor sobre educação, mas arriscaria dizer que a diversão devia ser o primeiríssimo fator na escolha dos livros que as crianças e adolescentes vão entrar em contato na escola, em segundo plano o mérito literário. Na verdade, a diversão devia estar no primeiro e segundo plano e o mérito literário no terceiro. Melhor, deixe o terceiro vago e coloquem o mérito literário no quarto. Porque por mais que você não esteja ensinando os temas medievais contidos nos Lusíadas, você está ensinando uma coisa muito mais importante: o hábito de ler. E é isso que falta na verdade.
O meu livro favorito é Don Quixote. Eu já o reli diversas vezes. Caso eu tivesse que encarar este catatau de 500 páginas no colegial eu duvido que eu teria memórias muito agradáveis sobre ele. A mesma coisa sobre Shakespeare. Quando você gosta de ler o seu gosto se modifica com o tempo e por si só você se aproxima de obras mais refinadas. Aprender a gostar de ler é um processo muito longo e com poucos atalhos, ensinar um hábito é mais difícil do que ensinar idéias. E a meu ver essa idolatração de baluartes passados tem uma grande influência na qualidade da produção dos novos escritores.
Nós vivemos sim em um país de analfabetos, mas culpar a falta de educação da população por não querer ler “as grandes promessas da literatura nacional” (eu fujo sempre que leio essa frase) é muito arrogante. A típica atitude de “nós que vivemos na torre de marfim” que se encontra nos círculos artísticos e acadêmicos “dos dias de hoje”, “neste país”.
A diversão precisa fazer parte dos livros. De novo: A diversão precisa fazer parte dos livros. Mais uma vez: A diversão precisa fazer parte dos livros.
Cartas dos Leitores